HUH: novas linguas para a nova internet

By Duda Pedreira & Pedro Moraes for Seeking a New Kind of Public Good

No “Guia do mochileiro das galáxias” tem um peixe, que você pode inserir em seu ouvido para entender todas as línguas do universo.

eaiiii, foi mal pela demora em responder e por mandar audio, to ligado o quanto você não curte.... coloca aí em 2x hahahaha vou tentar ser breve, mais rápido que um podcast.... então, você lembra desse texto que vc comentou um tempão atrás? "O significado da Descentralização" um dos primeiros do Vitalik... então... acabei de comprar no HUH! Meio estranho comprar uma NFT de patronagem. Mas faz sentido, sei lá, é meio que um marco pra mim, um presente que eu me dei porque eu acabei de ter meu primeiro texto publicadoooooooo! hahahahhah queria te falar isso tem um tempo, você lembra que falamos desse lance que eu tava pesquisando, sobre como em ratos explorando um espaço volumétrico, as células grid são moduladas espacialmente mas seus campos de disparo são arranjados irregularmente?

Era isso, então, foi esse o lance que foi publicado, to muito pilhado! Não acreditei quando alguém no HUH sugeriu pra publicação... e as pessoas votaram pra traduzir, real oficial....... que doidera. Nem sei se a galera tinha se ligado que eu fazia parte do projeto até eu dar um alô, cara tô amarradão que issoooo. Muito doido pensar que até uns anos atrás esse tipo de coisa nem rolava em português, e agora parece tão normal... tipo tudo hoje em dia é uma DAO e a gente vive num patchwork neo-feudal, mas pô.... antigamente a gente nem sabia o que completude de turing significava. Mas então amiga, é isso.... vamos se falar no videozinho, na outra semana quando você tiver de volta na Rússia? A diferença de hora agora é grande demais pra mim, preciso das minhas 8 horas de sono hahahah.... beleza, falamos em breve? bjss

Essa curta narrativa tenta imaginar uma solução para um problema que encontramos constantemente ao trabalhar com tecnologia no sul global: fontes primárias não estão disponíveis nas nossa línguas locais e por isso, o acesso a novas ideias, novos mundos, permanece o privilégio de poucos — estes por sua vez já privilegiados (financeiramente ou de outras formas). A falta de proficiência em língua estrangeira limita o que podemos fazer juntos, limita os meios que podemos inventar para endereçar questões e contextos locais. Para sermos plenamente capazes de imaginar o que uma ideia engendra, temos que pensá-la como inseparável do contexto onde ela é aplicada.

A Internet pode ser vista como um bem público, uma tecnologia capaz de criar a maior e mais robusta biblioteca pública da história da humanidade. Contudo, ao pensarmos nesta perspectiva um tanto utópica, temos que considerar questões de acesso. Não só do acesso à mídia que constitui esta biblioteca, mas também do acesso ao seu conteúdo. Por mais que a Informação queira ser livre, se há uma assimetria em sua compreensão, o quão livre ela de fato é? Se um projeto, tal como este, elege o inglês como sua língua-franca, como falamos de acesso?

Mesmo em uma época em que as consequências do projeto colonial são evidentes e abundantes, o fluxo de informações continua sendo, em sua maior parte, unidirecional. Os contextos práticos e geográficos estabelecem um alto limiar para a circulação, adoção e iteração de todo conhecimento novo.

Nos espaços onde crypto e web3 são discutidos, a queixa da “falta de acesso” é onipresente, principalmente quando se trata da escalabilidade dos projetos, usuários e da própria rede. Ao pensar nessas barreiras de acesso, as financeiras e técnicas são tidas como as mais preocupantes e a da língua é frequentemente ignorada. Superar essa barreira linguística pode ser justamente uma estratégia para lidar com todas as outras mencionadas. Apenas alguns projetos de escala institucional dentro desse contexto, têm os recursos necessários para traduzir a sua documentação. Essa restrição financeira é um obstáculo que impede a circulação de todos os outros textos que também moldam esta nova era da internet — as reivindicações informais, a pesquisa independente, a criação de conteúdo, os meios de comunicação especializados e as experiências sociais.

O monopólio da língua inglesa na produção técnica e cultural é uma questão pública ampla. As pessoas que não sabem ler ou escrever em inglês, além de privadas de um vasto campo de conhecimento, não podem contribuir. Escritores não falantes nativos mas que possuem fluência, são incentivados a publicar em inglês, especialmente nos círculos acadêmicos, deixando seu contexto local sem acesso a seu trabalho. Os leitores de inglês monolíngue tem suas perspectivas limitadas pela falta de diversidade de conhecimento que tem acesso, e os que só escrevem em inglês são incapazes de compartilhar seu trabalho mais amplamente.

Se o ethos da web3 é construir o novo com ferramentas desenhadas para empoderar indivíduos, devemos tomar as medidas necessárias para realmente torná-las disponíveis para todes em todo lugar.

Blockchain e crypto são ferramentas técnicas importantes, principalmente por facilitarem transações financeiras e permitirem a automação de processos de governança. Criptomoedas e carteiras multisig (multi-assinaturas) permitem que fundos sejam arrecadados, guardados e distribuídos através de autorização e consenso coletivo. Outras aplicações da blockchain permitem processos transparentes de votação, verificação de identidade e auditoria. Além da blockchain ser um capacitador técnico, a cultura que se forma em torno da web3 é também um terreno fértil para imaginar uma aplicação, uma DAO, que lide com este problema específico de acesso.

Essa DAO imaginada seria uma plataforma para traduzir e publicar texto. Um espaço digital onde as pessoas encontrariam conhecimento em línguas específicas, que não estariam disponíveis em outro lugar. Funcionando como uma cooperativa administrada por sua comunidade de leitores, escritores, tradutores e outros que queiram ter participação no desenvolvimento da plataforma.

A plataforma não é uma empresa de tradução que é uma cooperativa. Também não é uma prestadora de serviços aberta a negócios, mas uma comunidade que escolhe quais textos e autores são traduzidos e porquê.

Esta plataforma poderia ter o nome de HUH; de acordo com um estudo projetado para identificar palavras presentes em todos os idiomas, “HUH” é considerado uma espécie de palavra universal, capaz de afirmar que existe um problema, sinalizando falta de conhecimento e pedindo uma resposta sem estar ciente de qual esta pode ser.

HUH começaria traduzindo textos seminais relacionados à web3. No futuro, pode abranger outras áreas de conhecimento e as comunidades construídas em torno da plataforma devem decidir quais serão essas áreas. Os membros da HUH propõem textos importantes a serem traduzidos para outros idiomas — talvez espanhol, português e mandarim. Os títulos e resumos do texto seriam traduzidos e postados para votação na plataforma (como o Mirror Race, mas com textos já existentes, ao invés de autores potenciais). Os mais votados são escolhidos para serem traduzidos; qualquer um pode votar, mesmo os leitores que não fazem parte formalmente da comunidade.

HUH utilizaria três táticas para traduzir; tradutores profissionais terceirizados, pessoas bilíngues da comunidade e ferramentas de tradução automatizadas. A revisão dos textos seria feita pela própria comunidade, já que esta tem familiaridade com o tema, compartilha os mesmos valores e têm interesse na integridade do projeto.

HUH teria um grupo de trabalho que garantiria a eficiência de todo o processo. Desde a  gerência do desenvolvimento técnico, a comunicação com os autores e os sites de publicação originais, até a escolha do método de tradução apropriado, coordenação de revisão, publicação dos textos e distribuição dos fundos ao longo dessa cadeia produtiva.

A HUH não teria uma paywall, seria financiada através de um função de micropagamentos integrado em cada uma das páginas dos textos traduzidos no site. Patrocínios e doações maiores vindo de pessoas interessadas na experimentação e expansão do ecossistema da web3, seriam outra fonte de receita, bem como a possibilidade de aquisição de NFTs das traduções em diferentes línguas, de diferentes textos.

A comunidade HUH deve crescer continuamente, leitoras(es), após atingir um valor x de micropagamentos, obteriam status de membresía/sociedade. As autoras(es) se tornam parte da comunidade quando seus textos são votados para tradução. Tradutoras(es) se juntam fornecendo serviços. Entusiastas e investidoras(es) participam comprando tokens da HUH. Cada uma das categorias de participação mencionadas teriam acesso a diferentes possibilidades de atuação, direito de voto e remuneração. 

O resultado desejado para uma plataforma que lide com as questões descritas acima, é que seja de propriedade coletiva e governada por todas as partes interessadas. Embora apenas esboçada aqui, desenhar a operação eficiente dessa plataforma é completamente factível.

HUH cria um mecanismo financeiramente viável para traduzir conhecimento atual, e assim expandir o campo de intervenções possíveis em diversas problemáticas. Ao criar um fluxo multilateral de textos, HUH permite que uma comunidade esteja em diálogo apesar das barreiras financeiras e linguísticas existentes em torno dos meios de publicar.

Entendemos que a pesquisa e o desenvolvimento, seja ele profissional ou informal, são severamente impactados pela largura da banda (bandwidth). Daí a importância de ampliar o acesso. Os problemas obtêm a solução que merecem dependendo de como são definidos. Aumentar possibilidades de colaboração e entendimento neste processo tendem a criar soluções melhores.

Se HUH for construída e mantida adequadamente, suas externalidades positivas se realizam através de uma comunidade multilíngue em crescimento, que aumenta sua capacidade de ação através da expansão do escopo de informações disponíveis. Em um mundo amplamente definido por ativos financeiros, preferimos entender o que é necessário para imaginar novos mundos, não apenas na dimensão material do desenvolvimento tecnológico, mas também nas suas exigências cognitivas — como a linguagem.

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